Com a ampla adoção de soluções biométricas no Brasil, impulsionadas pela praticidade e pela promessa de segurança superior às senhas tradicionais, muitos usuários e empresas passaram a enxergar essa tecnologia como a solução definitiva contra fraudes digitais. Dados mostram que 82% dos brasileiros já utilizam algum tipo de biometria, seja reconhecimento facial ou digital, especialmente em operações financeiras. Porém, o aumento recente das fraudes está evidenciando que apenas a biometria já não é mais suficiente.
Dados da Serasa Experian revelam que somente em janeiro de 2025 foram registradas 1,24 milhão de tentativas de fraude no Brasil, representando um aumento de 41,6% em relação ao ano anterior. Desse volume, grande parte está relacionada diretamente a falhas ou fraquezas exploradas por golpistas em sistemas biométricos.
Sylvio Sobreira Vieira, CEO & Head Consulting da SVX Consultoria, explica que a vulnerabilidade da biometria não está apenas na tecnologia, mas principalmente em fatores humanos e nas técnicas cada vez mais sofisticadas utilizadas pelos criminosos. “A biometria trouxe um patamar superior de segurança em comparação às senhas tradicionais, mas as quadrilhas já avançaram para golpes mais elaborados, como engenharia social e deepfakes, conseguindo enganar até mesmo sistemas avançados”, afirma o especialista.
Entre os casos mais recentes, destaca-se um episódio em Santa Catarina, no qual golpistas usaram falsos vendedores de serviços para coletar clandestinamente dados faciais de vítimas. Em Minas Gerais, criminosos chegaram a simular serem entregadores dos Correios, coletando impressões digitais sob pretextos falsos para acessar indevidamente contas bancárias.
Sobreira reforça que um dos grandes problemas é a falsa sensação de segurança criada pela popularização da biometria. “Os usuários presumem que a autenticação biométrica é infalível, o que não é verdade. Hoje, criminosos utilizam desde técnicas simples, como impressões digitais falsas feitas em silicone, até métodos altamente sofisticados envolvendo inteligência artificial”, explica.
Um exemplo emblemático ocorreu em maio deste ano, quando a Polícia Federal deflagrou a operação “Face Off”, identificando uma quadrilha que utilizava deepfakes para fraudar cerca de 3 mil contas no portal Gov.br. O grupo empregava técnicas avançadas de manipulação facial para acessar serviços públicos digitais, driblando inclusive sistemas de detecção de vida (liveness detection).
Para o especialista, situações como essas comprovam a necessidade urgente de um novo paradigma de segurança digital. “A solução passa obrigatoriamente pela adoção de autenticação multifatorial e uma estratégia de segurança multicamadas. A biometria continuará sendo um elemento importante, mas não deve ser o único mecanismo de proteção”, afirma.
Segundo ele, é essencial que as empresas combinem diferentes métodos, como senhas temporárias, biometria comportamental (analisando padrões de uso e comportamento do usuário) e o uso proativo da inteligência artificial para detectar tentativas suspeitas ou fraudes em tempo real. “Não existe uma única tecnologia que consiga garantir segurança total. É preciso um conjunto robusto e complementar de ferramentas e processos”, completa.
O exexutivo também destaca ainda o potencial das tecnologias de IA para combater o próprio uso indevido da inteligência artificial pelos criminosos. “Ferramentas inteligentes conseguem identificar sinais sutis em imagens e vozes sintéticas geradas por deepfakes, ampliando consideravelmente o nível de proteção das organizações”, explica.
Por fim, o especialista reforça que as instituições financeiras e empresas de pagamentos devem compreender que segurança digital exige atualização constante. “Os criminosos estão evoluindo continuamente, e as estratégias de segurança das empresas precisam acompanhar essa evolução para garantir a proteção efetiva dos seus clientes”, conclui.
